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sábado, 9 de maio de 2009

Um catedrático ateu, graças a Deus

Pegamos o último vôo da ponte aérea Rio-São Paulo naquele dia, um sábado depois do feriadão do dia do trabalho.

O avião até que estava bem cheio para um sábado como aquele. Na parte da frente da aeronave, um Boeing 737-800 da Gol, um grupo bem grande de estudantes fazia um pouco de algazarra.

Como fomos quase os últimos a embarcar, quando chegamos lá no final do avião, todos os outros passageiros já estavam acomodados em suas poltronas. Exatamente na nossa frente, separados pelo corredor, estava um senhor de seus quase sessenta anos e uma senhora pouco mais nova. Pouco depois vim saber que o homem era um catedrático de uma Universidade católica.

Sentamo-nos e nos acomodamos enquanto os dois conversavam num tom razoavelmente alto. Não era um monólogo, mas a senhora ouvia muito mais do que falava. Além disso, quase não conseguíamos ouvi-la porque ela falava num tom muito baixo. Ele, por outro lado, falava alto e gesticulava bastante.

Obviamente não dei atenção à conversa dos dois, mas como ele falava muito alto, era difícil não ouvir. Além disso, depois de um certo tempo, ele começou a sentar a lenha na Igreja, nos padres e em membros da universidade católica. Comecei a prestar atenção no que ele dizia. O sujeito era incansável, falava, falava, falava e não parava de malhar os padres e católicos que ele conhecia.

Quando o avião levantou vôo e liberaram o uso de aparelhos eletrônicos, resolvi parar de ouvir a conversa ácida dos dois e ligar meu tocador de vídeo para ver um filme sobre os gols mais bonitos do mundo.

Coloquei meus fones de ouvido e me desliguei da conversa do catedrático (como ele mesmo havia se intitulado) e sua ouvinte para assistir aos gols. Minha esposa já estava lendo seu livro desde que levantamos vôo em Congonhas.

Quando estávamos chegando ao Rio de Janeiro pediram, como sempre, para que todos desligassem os aparelhos eletrônicos, porque iriam iniciar o procedimento de pouso. Obedeci e voltei a poder ouvir o que falavam ao meu redor, mas nem prestei atenção na conversa dos dois. Comecei a conversar com minha esposa sobre o congresso que ela havia participado naquele dia.

O procedimento de pouso ia muito bem, quando, de repente, o piloto resolveu arremeter a aeronave e abortar o pouso. Levantamos bruscamente sem nenhuma explicação. Naquele momento, houve um grande silêncio no avião. Até a algazarra lá da frente parou.

Olhei para o catedrático (não conseguia ver sua interlocutora) e ele estava de mãos juntas! Logo em seguida o vi voltando-se para a senhora e dizendo para ela: "Agora é rezar! Falamos mal de tanta gente..." e voltou a juntar as mãos e fechar os olhos numa prece profunda.

Comecei a rir por dentro! Estava quase gargalhando! Nesse instante o piloto tomou o som da cabine e informou que havia um forte vento lateral naquela cabeceira e que precisaríamos pousar no outro sentido da pista.

Daí por diante passei a observar a paisagem pela janela do meu lado. Fizemos um belíssimo passeio noturno pela Cidade Maravilhosa e, cinco minutos depois, pousamos tranquila e suavemente na outra cabeceira da pista do Aeroporto Santos Dumont. Todos aplaudiram o piloto.

E o catedrático? Esse, além de ter perdido a vista lindíssima dos cartões postais do Rio de Janeiro à noite, deve ter tido muito trabalho para limpar as calças depois.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A Lucas o que é de César

Por José Antonio Oliveira

Fabiana não sabia o que fazer com o envelope que estava em suas mãos. Olhou mais uma vez o resultado do exame, ainda lacrado.

Antes de abrir, lembrou-se outra vez da cara que o namorado havia feito quando descobriu que ela estava grávida. Ele parecia estar vendo um fantasma. Ficou tão chocado com a novidade, que se despediu às pressas e nunca mais atendeu nem um telefonema. O maldito, pensava, tinha o tal “bina” no celular.

Uma vez, ligou de um orelhão para ele, e, quando ele reparou que era ela quem estava do outro lado da linha, desligou o celular e mandou a operadora trocar seu número. Foi a maior decepção da sua vida ter confiado tanto num homem e ele fazer esse papel de moleque.

Depois de afastar as lembranças do namorado, Fabiana resolveu abrir o envelope, para ficar mais calma. Com certeza, tudo devia estar bem com o pequeno bebê, que já estava com 18 semanas.

Sem muita pressa, abriu o envelope e foi direto ao ponto do laudo que interessava.

Naquele instante, era ela que parecia estar vendo um fantasma. Um não, uma legião tenebrosa de fantasmas assustadores trazendo consigo as palavras “feto anencéfalo”.

Ficou repetindo consigo, em estado de choque: “feto anencéfalo”, “feto anencéfalo”, “feto anencéfalo”... E desabou num pranto.

Não era possível! Devia haver um erro! Havia de estar errado! O neném tinha que ser lindo, gorducho, rosado, alegre, saudável, feliz... Não anencéfalo!

Correu até o banheiro, abriu o armário, pegou o calmante fitoterápico e tomou uns comprimidos. Sua sorte era ser bastante sensível ao maracujá. Em meia hora já estava calma novamente. Muito triste, mas calma.

Pegou o telefone e discou para o consultório do médico.

– Consultório do Dr. Queiroz...

– Por favor, aqui é Fabiana Silva, gostaria de saber se o Dr. Queiroz pode me atender hoje.

– Hoje? Ele só tem agora consulta para fevereiro do ano que vem.

– Fevereiro? Mas ainda estamos em dezembro!

– Isso mesmo, fevereiro. Você quer marcar?

– Olha só, minha querida, isso é uma emergência! Eu preciso falar com ele hoje, nem que seja num encaixe de dez minutos entre duas consultas!

– Humpf (detesto quando me chamam de “minha querida”)... Vou falar com ele assim que terminar essa consulta. Me dê seu telefone.

– O telefone é 28... Ah, e tem também o celular, 82...

Passaram-se 20 minutos – os mais longos de sua vida – e, felizmente, a secretária telefonou dizendo que ela poderia ser atendida em duas horas.

Fabiana não esperou nem um minuto, partiu para o ponto de ônibus para esperar as duas horas lá no consultório do Dr. Queiroz.

Foi sua sorte. O trânsito estava terrível desde o túnel Santa Bárbara até a rua Pinheiro Machado. Havia um caminhão enguiçado bem em frente ao Palácio Guanabara. O tráfego estava em meia pista. Se tivesse se demorado mais um pouco em casa, não iria chegar a tempo no consultório, que ficava na Voluntários da Pátria.

Chegou ofegante ao consultório e entregou a carteirinha do plano de saúde para a secretária, que ainda estava de mau humor.

Nem teve tempo de sentar e abrir uma revista e o Dr. Queiroz já estava saindo de seu consultório. Ele disse para que o aguardasse lá dentro enquanto ia buscar um FAX na recepção.

– Como está, Fabiana? – Perguntou o Dr. Queiroz, ao voltar para a sala. – Fez os exames que eu pedi?

– Pois é doutor, fiz e já tenho os resultados, gostaria que o senhor lesse, por favor.

O médico leu tudo sem esboçar nenhuma emoção. Só os olhos se mexiam no seu rosto. Nem uma expressão de susto, de tristeza, de surpresa... de nada!

Depois de terminar, ele deixou os papéis em cima da mesa, encostou-se na cadeira e deixou escapar um longo e sonoro suspiro.

Ele sabia que ela tinha cultura suficiente para entender o que estava escrito no laudo e foi diretamente ao assunto.

– Fabiana, você pode fazer outro exame, mas o que eu estou vendo aqui não deixa nenhuma sombra de dúvida que seu bebê é anencéfalo. Lamento.

– É, eu sei...

– Infelizmente, não há o que fazer para que essa criança consiga sobreviver, mas também não é possível precisar quanto tempo ela ficará viva depois de nascer.

– Eu posso interromper a gravidez?

– Abortar? Não aconselho.

– Não, não quero abortar, queria, “tipo”... fazer um parto para antecipar o nascimento.

– Sim, o que você quer é abortar.

– Não, já disse que não quero abortar... Ou melhor, quero abortar sim, afinal é o meu corpo, eu tenho que ter direito de decidir se eu quero ou não carregar uma criança morta na minha barriga. A minha cabeça já está entrando em parafuso por causa desse assunto.

– Veja bem, Fabiana, ele não está morto ainda. Se nós o tirarmos daí hoje, aí sim ele vai morrer instantaneamente. Ele pode até não ter atividade cerebral, mas vai sobreviver um tempo, apesar de pequeno, depois que nascer. Pense que você o está servindo para ele viva esses poucos meses no seu ventre.

– Mas qual é a diferença de morrer hoje ou morrer daqui a quatro meses? Além do mais, eu vou sofrer por mais 20 ou 22 semanas sabendo que tenho uma criança quase morta aqui dentro de mim...

– Como é mesmo o nome que você escolheu para o menino?

– Como o senhor sabe que é menino?

– Dá para ver perfeitamente nessa ultra-sonografia. Mas, me diga, como ele vai se chamar?

– Er... Se fosse menina, eu ia chamar de Júlia. Se fosse menino, César.

– Como assim “ia” chamar?

– Bem, se eu pudesse, não teria essa criança.

– Bom, já que você quer tanto, você pode fazer seguinte: entrar com um processo judicial pedindo a interrupção da gravidez. Existem casos como esse que já foram aprovados e o processo até que é bem simples, em comparação com outros processos na justiça do nosso país.

– Sério?!

– Sim, se você conseguir ganhar a causa, eles vão autorizar o procedimento de interrupção da gravidez, e tirar a criança aí de dentro.

– Mas, e depois, o que eles fazem com a criança?

– Depois jogam fora. Afinal de contas ainda não é uma pessoa e pode ser jogada fora.

– Mas jogam no lixo?

– Sim e não. Mas na prática é sim, mais ou menos isso.

– Mas eu queria enterrar meu filho. Não quero que ele vá para o lixo do hospital.

– Dificilmente eles vão te entregar a criança. Você pode até conseguir que te entreguem, mas não vai conseguir enterrá-lo, porque nem certidão de nascimento ele vai ter.

– Mas eles não podem jogar fora uma criança assim! Poderiam, pelo menos, doar os órgãos para outra criança recém-nascida.

– A anencefalia não impede a formação dos órgãos, mas, para poder doar os órgãos, eles precisam estar formados. Se ele ainda nem chegou na metade da gestação, não será possível doar os órgãos. Na verdade, não vai ter utilidade nenhuma para outra criança...

– Entendi... Bom, não quero tomar mais o seu tempo doutor. Sua próxima paciente já deve estar esperando há muito tempo. Eu te agradeço pela conversa e por me atender num dia tão atribulado.

– Disponha. Pense nisso tudo e tome sua decisão. Pense no César também.

Despediram-se, e Fabiana foi para casa pensando no que o Dr. Queiroz havia falado.

Alguns dias depois, telefonou para marcar uma outra consulta para fevereiro.

O menino nasceu no dia 22 de abril do ano seguinte. Foi batizado no hospital com o nome de César Silva e lá mesmo recebeu sua certidão de nascimento.

Viveu apenas um dia. Pouco tempo. No entanto, foi o suficiente para ele cumprir sua missão: sua mãe autorizou a doação dos órgãos logo em seguida, e seu coração continua batendo no peito do pequeno Lucas, que aguardava ansiosamente por uma doação.